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Assistir ao Batman de Matt Reeves me fez perceber que o herói da forma como vemos nos quadrinhos não é representado nos filmes recentes. Sempre acompanhamos o arco de como o Batman se torna o personagem que a gente conhece de uma forma ou de outra. E isso acontece porque, se pensarmos o suficiente sobre ele, o personagem não faz sentido nenhum. E é muito difícil fazer uma audiência comprar um personagem que não faz sentido, ou pior ainda, um personagem perfeito como o Batman: um bilionário, super inteligente com o físico perfeito e mestre de todas as artes marciais.


E é aí que entra a sagacidade de Matt Reeves, o diretor do filme, em contar essa história de vir a ser da melhor maneira possível: utilizando-se da roupagem estética do gênero Noir acompanhada do clássico protagonista investigador que é um ser humano imperfeito num mundo cruel demais pra ser de qualquer outro jeito. E aqui quero deixar claro que digo imperfeito não só num sentido psíquico mas também físico. Robert Pattinson não adere aos corpos perfeitos e sem tesão tão comuns nos blockbusters hollywoodianos, seu físico é natural e suas cenas de luta são falhas. Pattinson apanha dos mais genéricos capangas em todas as cenas de luta do filme. E isso, para além de uma dimensão prática da realidade que seria viver o Batman, também implica em uma dimensão psíquica nos fazendo questionar a sanidade do herói através da pergunta: “quem se sujeitaria a esse tipo de coisa todas as noites?”



E é por focar nesse aspecto estilístico e tudo que ele encerra que Reeves acerta tanto. The Batman (2022) tem seus pontos mais fortes e memoráveis não nas cenas de ação (como se esperaria de um blockbuster moderno) mas na esquize do olhar. Isto é, como é encenado e recortado através da montagem o olhar da câmera e dos personagens no filme. Nas cenas de investigação o olhar da câmera de Reeves está extremamente preocupado em recortar os olhares das personagens ligando-os ao que está sendo olhado, lembrando muito o potencial voyeurístico muito comum do cinema clássico nos quais o filme se inspira. O que gera uma certa tensão e, eu diria, até uma sensualidade que permeia toda a obra. 


Sensualidade essa que fica escancarada quando o filme introduz Selina Kyle (Zoe Kravitz), a mulher gato. Na narrativa ela trabalha num bar onde os chefões do crime organizado e figuras políticas da alta cúpula das instituições de Gotham vão para confraternizar. Na cena de introdução da Selina, que ocorre enquanto Batman tem um encontro com o Pinguim, todo o peso da tensão existe, não na presença do famoso vilão (que é de maneira cômica constantemente ignorado ou tratado como inferior durante a narrativa), mas no recorte dos gestos, no jogo de observador e observado e, é claro, na troca de olhares entre Kravitz e Pattinson. E é em momentos como esse que é possível respirar de forma mais pronunciada o ar fresco que The Batman injeta no cinema de quadrinhos contemporâneo.


Esclareço o que eu quero dizer com exemplos. O filme abre com um plano de ponto de vista com uma moldura de binóculos. Esse ponto de vista observa a janela de uma casa e a vida de uma família — que logo mais descobriremos ser a família do candidato a prefeito da cidade de Gotham. E o voyeur de binóculos é apresentado logo em seguida como sendo Charada, o vilão do filme. E o interessante desse ponto de vista voyeurístico de Charada conforme ele aparece, quase sempre antes de fazer mais uma vítima, é em como ele equipara Batman e Charada. Para além da narrativa que faz isso com maior ou menor sucesso a depender da execução da cena, o próprio personagem do Charada se vê, nas palavras dele, como a mesma coisa que o Batman.


O forte de ter um diretor como Matt Reeves guiando esse filme é que ele consegue ir além do texto, hipertexto e gestos para fazer a ponte de comparação entre esses personagens. Para isso, Matt Reeves usa a ferramenta mais poderosa de significação do cinema: a forma fílmica. E é aí que entra o meu momento favorito do filme. Esse momento se encontra mais a frente no desenvolvimento da história, após Charada já ter assassinado algumas pessoas. O diretor abre novamente uma cena com um plano de binóculos. Porém, dessa vez, é o Batman que nos é revelado como o observador. Logo, através da forma fílmica, o uso de recorte dos olhares, essa esquize também enfatiza a relação entre Batman e Charada. Sem nos avisar, o próprio Reeves, utilizando de uma ferramenta de linguagem, nos faz achar que Batman era Charada.


Por fim, de todas as coisas, é curioso que seja uma raridade no cinema de herói você estar consciente do fato de que está indo ver algo que é Cinema — que tem uma intencionalidade, uma visão, um conjunto estético específico, etc — porque isso deveria ser a norma, o mínimo; mas a gente sabe muito bem que não é. Por isso, Batman salta aos olhos já nos seus primeiros minutos. No meio de uma infinidade de filmes genéricos de super-herói, Matt Reeves nos leva de volta aos anos clássicos do cinema onde tudo que importava era colocar a audiência no lugar do qual ela nunca deveria ter saído. Esse lugar é claro, é o de Voyeur.

Há 1 comentário.

  • Por Tiago Maia segunda, Dia 02 de maio de 2022 às 00:00h

    Parabéns ao Hugo pelo texto!!

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