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Desde o início do cinema marginal, a sétima arte brasileira se obtém das alegorias para contar suas histórias — a alegoria é caracterizada como uma fragmentação entre o homem e a natureza, ela questiona o otimismo burguês e o capitalismo. As alegorias têm papel fundamental no cinema brasileiro como um escape de censuras e rejeições, não à toa surgiu durante a ditadura militar. O desespero dos cineastas diante da situação política do final dos anos 60, fez com que eles criassem formas de gritar sem que todos ouvissem. Portanto, esses filmes trazem em suas narrativas, fortes críticas ao sistema, em construções estéticas que fragmentam essa percepção óbvia.




Sendo assim, Renata Pinheiro olha pro passado e utiliza de seus mecanismos alegóricos para contar a história do jovem Uno (Luciano Pedro Jr), que tem a peculiar habilidade de se comunicar com os carros. Em meio a uma mudança na legislação onde carros mais antigos serão proibidos de circular, ele busca a ajuda de seu tio Zé Macaco (Matheus Nachtergaele) e da inteligência de um antigo carro, para que juntos possam encontrar uma solução que beneficie a todos.

As referências dentro de “Carro Rei” são inúmeras, desde Christine: o carro assassino, aos filmes de terror da A24. Gosto de como Renata, além de passear entre referências, consegue viajar entre gêneros e subgêneros do cinema.


No início do filme, por exemplo, nos deparamos com um drama familiar, onde Uninho precisa lidar com o controle e conservadorismo de seu pai, e aprender a lidar com a perda. No entanto, com o passar do filme, Renata vai construindo uma atmosfera fantástica — com fortes elementos do terror "psicológico" — sem contar com os alívios cômicos que são muito bem pensados.

A maneira como Renata Pinheiro pensa sua Mise-en-scène é cativante, ela apresenta seus componentes cinematográficos de forma muito fluida, ela é corajosa em suas escolhas técnicas utilizando muitos recursos experimentais, como a trilha sonora “esquisita” — a sonoridade da trilha traz esse ar misterioso, desconfortante e futurístico. Além de sua fotografia, que é sobretudo azul, essa frieza reforça essa atmosfera onírica e fantástica que Carro Rei possui.





O cinema é arte que reflete o seu tempo, portanto é muito comum que filmes posicionem-se em detrimento de alguma opinião política ou social, até mesmo filmes de gênero como os filmes de terror dos anos 70/80. O cinema brasileiro por sua vez, adora trazer essas partículas de posição, afinal nosso país é um prato cheio pra arte sociopolítica. Desse modo, carro rei aproveita das entrelinhas de seu roteiro para criticar essa necessidade social por tecnologia, e a corrupção que há em meio aos governos que só pensam no lucro e não no benefício da classe trabalhadora; gosto de como ela deixa claro (ou não tão explícito assim) como somos facilmente manipulados por fortes discursos autoritários — os carros assumem essa personalidade dominante, com falsos discursos de “luta de classes”, gerando inclusive uma cena muito impactante onde ouvimos “caruaru acima de todos”.

Por trás disso também existe uma crítica bem pontuada sobre nossas relações homem e máquina, onde Pinheiro trabalha com o experimentalismo visual, viajando entre tempo, espaço e memórias — característica que gera uma cena super “chocante” entre uma mulher e um carro.



“Carro Rei” engana aqueles que querem ser enganados por seu cinema fantástico, estranho e experimental, mas com toda certeza, fará o espectador refletir muito mais nas atitudes sociais e na maneira que nos relacionamos. É um filme ótimo para os amantes de ficção científica e uma boa pedida para valorizarmos o bom cinema nacional.