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Em uma análise superficial do conteúdo, o cinema de Apichatpong Weerasethakul pode - e é - encarado como uma série de contemplações pretensiosas na qual seus personagens caminham sem rumo em uma suposta divagação que jamais fica clara e que soa frívolo em sua essência. Não deixa de ser uma interpretação válida, mas é curioso como o diretor Tailandês parece querer ir além dessa composição estática das suas imagens em uma busca por uma conexão profunda entre os corpos com a natureza ao seu redor e com os espaços na qual se encontram inseridos. São filmes que carregam um forte teor místico, ainda que nem todos lidem diretamente com elementos fantasiosos (e os que flertam com o gênero conseguem ser os ápices, como exemplifica Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, de 2010), e integram as meditações imagéticas como parte imprescindível para o seu andamento narrativo. E, claro que Memoria, seu mais recente trabalho, carrega muito desse viés.




Na premissa, a fazendeira Jessica (Tilda Swinton) escuta um som que remete a uma bola de pedra caindo sobre uma superfície metálica. Esse barulho de natureza distinta e que somente ela consegue escutar deixa a personagem curiosa com sua origem, levando-a em uma viagem que, em cada caminhar da narrativa, faz menos sentido e importância. Assim como opera em seus curtas, Apichatpong está mais interessado no modo que suas imagens vão operar nessa jornada de apreciação pelo vazio dos ambientes e dos espaços. Se existe movimento nas imagens do realizador, até ele é composto de modo minucioso, com um deslocamento suave pelo espaço que preserva a admiração do público por aquilo que a câmera captura sem pressa. Mas é dentro do estático que Weerasethakul concebe seu trajeto em direção ao misticismo implícito na mise-en-scène. 


Sem expor em detalhes, tal qual Tio Boonmee, lançado à 11 anos atrás, Memoria lida diretamente com um elemento fantástico, adentrando a narrativa em seus minutos finais e de modo tão abrupto que a experiência ganha outro sentido, mas reforçando o clima sugestivo que a decupagem de Weerasethakul estabelece ao centralizar seus planos em ações triviais do espaço urbano, desde seus personagens em um ambiente lotado de pessoas ao redor até um estacionamento na qual os carros começam a apitar o alarme sem um motivo aparente. O espiritual que rodeia cada quadro inerte estabelecido pelo cineasta ao lado do diretor de fotografia Sayombhu Mukdeeprom se manifesta em meio ao prédios desolados, aos carros e avenidas e através do nublado sem vida da cidade de Bogotá. Se existe algo de profundamente melancólico nesse mundo automático da capital Colombiana, o realizador busca englobar o viés onírico que aquela localidade carrega pela apreciação dos seus registros.