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Rio, Zona Norte e um retrato de Brasil intensificado pela música popular

          A música popular carrega em si um poder único de expressão do íntimo do ser
humano, seu caráter popular democratiza e evidencia situações sofridas pelo povo brasileiro,
e compõe nesse processo uma representação de Brasil que é frequentemente marginalizado,
desde que o samba é samba é assim. Em seus dois primeiros filmes, “Rio, 40 Graus” e “Rio,
Zona Norte”, Nelson Pereira dos Santos utiliza desse poder da música popular para
intensificar o seu retrato de um povo que resiste mais do que vive. Em Rio, Zona Norte, o
sambista Espírito de Luz, interpretado por Grande Otelo, compõe sambas no morro em que
vive, letras que retratam a realidade sofrida da vida na comunidade, ao mesmo tempo que
exprimem os sentimentos de Espírito em seus versos. Vivendo sempre da promessa de um dia
ser gravado por algum artista, Espírito cai de um trem na Central do Brasil e relembra os
meses de sua vida anteriores ao acidente.


Cena de Rio, Zona Norte com o sambista Espírito em um trem na Central do Brasil


          O cinema de Nelson Pereira dos Santos é pautado num realismo ao abordar suas
situações, pouco interessado em se limitar aos estereótipos formadores da identidade carioca
(e consequentemente brasileira), mas em se aprofundar no meio comum que une todo esse
povo, um Brasil que chora mas chora rindo, que se mostra sórdido e acolhedor na mesma
proporção, e que cria esperanças de que um dia todo o esforço não será em vão. Essa forma
poética com a qual Nelson retrata o povo brasileiro parte sempre da naturalidade, o morro
como ele é, e nesse sentido, a música popular é essencial para transpor naturalidade, já que
representa “a mais autêntica expressão da alma”, modo como o cantor Candeia se refere ao
samba no curta Partido Alto de Leon Hirszman. As canções de Zé Keti para Rio, Zona Norte
conceituam esse grito que parte de dentro e é externalizado por meio do samba, constituem a
narrativa intensificando o poder da imagem de expressar as angústias desse povo.


          Espírito, de certa forma, acaba representando toda uma classe artística periférica
sucateada pela indústria, do Brasil de ontem e do de hoje também, uma indústria que atenta
contra a criatividade de seus artistas mais geniais, limitando suas oportunidades de alçar o
estrelato, justamente pela ausência de uma cultura de acolhimento para com a arte. Espírito
escreve seus sambas no anonimato, são versos que ressoam pelos ambientes do morro, são
ampliados pela voz de quem canta, músicas cantadas do fundo da alma e que Nelson filma
com tanto respeito e interesse por esse Brasil humilde. Ao extrair beleza da tristeza, o diretor
absorve essa dualidade de ser brasileiro para a tela do cinema, uma eterna contradição que
abarca a identidade nacional intensamente, e que acaba exprimindo toda agonia e prazer do
sol que queima, mas que aquece, as terras compreendidas ao sul do Equador.


Nelson Pereira dos Santos e Grande Otelo nas filmagens de Rio, Zona Norte (1957)


          A influência cultural causada pela obra de Nelson na representação desse Brasil
humilde, deixou uma marca muito importante no cinema nacional, e na própria música
brasileira. Rio, Zona Norte estreia num contexto de renovação cultural: as rádios possuem
papel fundamental na difusão da arte no país (como o filme de Nelson demonstra muito bem),
sendo o principal meio de exposição de artistas ao cenário nacional, a ascensão da bossa nova
no período propiciou também a exportação de uma música de identidade brasileira rebuscada,
exportando uma certa raiz característica do samba, porém muito mais ligada à romantização
de uma ideia de Brasil, do qual contrasta, em certa medida, com a realidade brutal exposta
por Nelson Pereira dos Santos em seus dois primeiros filmes. Ao fixar seu olhar diante desse
Brasil dilacerado, que vive à espreita da sociedade, e que resiste alentado pelo poder da
expressão musical, acaba por compreender uma manifestação do que sente esse povo da
forma mais intensa vista até então, e Rio, Zona Norte exprime o sentimento de incapacidade
que é tatuado nesse povo pobre como uma marca, desde seu nascimento.


          A relação de incompletude que há entre Espírito e seu filho, Lourival, é parte
essencial de Rio, Zona Norte. O jovem vive afastado do pai desde novo e está envolvido com
criminosos que cometem furtos na região. Há uma barreira clara na comunicação entre pai e
filho, gerado a partir da frágil situação em que Espírito teve que deixar seu filho, após o
falecimento de sua esposa, e devido a impossibilidade financeira de cuidar sozinho da
criança. Lourival vai acabar representando todo um Brasil dado como perdido, como os que
Chico Buarque expõe em “O Meu Guri”, canção de 1980, que relata a vida dos jovens que
nascem num ambiente inóspito e ausente de oportunidades, que têm de lidar com a fome
desde o berço materno, e que encontram numa vida de crimes a saída para as circunstâncias
subumanas que a vida na comunidade pode apresentar. Chico utiliza o ponto de vista de uma
mãe nos versos da canção, que relata as dificuldades sofridas na criação do filho, mas que
apresenta orgulhosa quem carinhosamente chama de “meu guri”, que agora carrega presentes
de luxo para a mãe sempre que retorna do trabalho, além de “Uma penca de documentos/Pra
finalmente eu me identificar”. Implicitamente, Chico faz referências ao longo da canção, aos
meios ilícitos utilizados pelo jovem para fugir da vida fadada ao sofrimento. A canção, como
o filme de Nelson, retrata um Rio de Janeiro (e também um Brasil), que há muito tempo só
mostra descaso para com seu próprio povo, e que é cerceado por uma mesma elite que
domina o país, e é aversa a tudo que nos torna humanos.


Pôster de Rio, Zona Norte (1957)


          Quando Espírito vê seu samba, escrito num pedaço de papel amassado, sendo cantado
pela primeira vez na voz da grande Ângela Maria, os olhos de Grande Otelo brilham como
um céu estrelado. Nelson torna esse momento repleto de um encanto único, após tantas
promessas e enganações, Espírito finalmente vê sua arte tomando a proporção que sempre
mereceu. Dessa supracitada dualidade em ser brasileiro, há uma alegria a cada dez tristezas, e
essa alegria toma um ar tão poderoso ao som do samba “Malvadeza Durão”, também de Zé
Keti. É como se Nelson utilizasse aquele momento para exorcizar toda a dor que Espírito
sentia em sua vida. A câmera atrelada ao rosto de Grande Otelo, observa com fascínio e
atenção o expressar de plenitude do sambista, ao finalmente ver seu samba reconhecido,
como quem finalmente vê validado os sentimentos expressados na canção. É dessa
intensidade da imagem aliada ao som, no manifesto de Brasil filmado por Nelson, que o
impacto da mensagem se torna mais longevo, e faz de Rio, Zona Norte, uma das mais
tocantes experiências do cinema brasileiro.


Espiríto ao ouvir Ângela Maria cantar seu samba


          Um dos recursos mais utilizados por Nelson Pereira dos Santos em Rio, Zona Norte, é
a desvirtuação da esperança. Espírito está o tempo todo esperando, o momento em que seu
samba verá a luz do dia e será cantado por uma dessas grandes vozes da rádio, do momento
em que seu filho voltará pra casa, do momento que a vida deixar de ser só luta e dor, da
chegada do próximo carnaval, porque com o carnaval vem promessa de samba vendido, e
com promessa vem esperança, e assim Espírito espera, espera o trem que vai passar e o
lembrar do quanto o morro é bonito mesmo na tristeza, do quanto a vida é do samba, e vai
cantar o samba que o lembra de que é dele todo esse Brasil, mas enquanto o trem não chega
Espiríto espera, e enquanto espera escreve o que sente a alma aflita de tanto esperar. O
cinema de Nelson retrata a esperança do povo brasileiro, esperança de um dia deixar de ser
sofrido assim, mas que mesmo no sofrimento não deixa de cantar, porque só expressando a
dor na canção, se alivia o que sente, e é na tela do cinema que essa dor toma corpo e se torna
pungente, um retrato que guarda no tempo todo o maltrato, mas que inflama como uma ferida
ardente toda vez que é tocado, pois lembra como um retrato do Brasil de ontem, ainda é o
mesmo do de amanhã.






Há 1 comentário.

  • Por Érica da Silva Martins Valduga quinta, Dia 19 de maio de 2022 às 00:00h

    Eu fico abismada como pode existir tanta poesia em meio a um senso crítico tão apurado e reflexivo. Sou sua fã, João. Parabéns!!!

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