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          O
cinema como expressão artística consiste em registrar através da imagem e do
som a força imortal de um momento, constantemente fictício, mas que encontra um
poder que transcende qualquer barreira entre realidade. Mesmo que esteja
mostrando algo nitidamente falso ou irreal, o encantamento pela concretização
da linguagem para aquele momento faz dele único e oferece uma conexão com o
espectador que, no final, pouco importa sua veracidade, mas sim a sensação
ocasionada no público. Um perfeito exemplar é o cinema de James Cameron e suas
recorrentes formas de explorar um viés dramático puramente entregue aos moldes
clássicos e universais de suas histórias, mas sempre recordando o período na
qual se encontra pela sua construção cênica. E o auge disso é, sem dúvidas, Titanic, lançado no ano de 1997.



          A
história de amor eterno do casal Jack (Leonardo DiCaprio) e Rose (Kate Winslet)
inicia de modo curioso ao mostrar a carcaça do RMS Titanic, que naufragou entre
o dia 14 e 15 de Abril de 1912, sendo encontrado por uma equipe durante o final
da década de 1990, onde os avanços tecnológicos eram avançados o suficiente
para desenterrar todo um universo perdido em meio as memórias de uma doce idosa
que resgata todo um passado guardado com ternura em sua mente ao ver seu
retrato em uma reportagem na TV. Cameron não espera muito para mostrar a
importância do ato de reencenar como forma de oferecer uma nova vida para
lembranças que Rose manteve aprisionadas durante décadas. A partir do momento
que a personagem inicia o longo e tocante relato da paixão proibida que o
diretor exercite a sua dinâmica tão eficaz de capturar o clássico dentro da
embalagem moderna.


                Se
os personagens e os rumos da trama presentes em Titanic são completos estereótipos dessa premissa de apelo tão
universal (o protagonista de bom coração pertencente à plebe, a jovem oprimida
e sugada por um meio coberto de excessos, a noiva prometida a alguém que ela
não ama verdadeiramente, o noivo antagonista e a natureza como uma força
predominante acima da insignificância humana em meio a algo irremediável), o
diretor James Cameron vai optar pelo caminho oposto ao permear uma encenação na
qual oferece prioridade aos elementos mais artificiais de seu arsenal cênico.
Basta recordar o clímax do casal, composto por uma digitalização forte do
horizonte que reitera tanto a escala do sentimento em cena quanto do espaço ao
redor dos atores, registrando o gesto de consolidação universal do romance (o
beijo) através de métodos formais do seu período (o Chroma-key, nesse caso).



              Cameron
retorna ao evento histórico do Titanic não como um mero exercício sádico de
capturar as perdas dolorosas do evento, mas em prol de comentar sobre a
humanidade através dessa ótica clássica do amor eterno e imortalizado nos
pequenos detalhes e, claro, nas memórias da Rose envelhecida pelo tempo, uma
protagonista que retém os bons momentos vividos que jamais foram consumados em
definitivo. Nesse sentido, é quase difícil não recordar de produções como The Bridges of Madison County, Before
Sunrise ou, buscando um exemplo mais antigo, Brief Encounter, dirigido por David Lean. Premissas sobre um amor
que já nasceu efêmero, mas que deixou belos momentos na mente daqueles que
vivenciaram, as lembranças eternas dos sorrisos, olhares e gestos que
transmitiam a beleza daquele evento. Nada pode ser mais humano do que o amor e
Cameron usa de tal sentimento para encontrar a pureza em meio a uma sociedade
nociva de ideais patriarcais e cobertas pela ausência de empatia ou
compreensão.


Desencanto (1945), David Lean

      

          Cal
Hockley, a encarnação de um tipo podre e repulsivo, é um produto de sua época,
um reflexo de tradições que só mudam quando pequenos atos se transformam em
algo grande, poderoso. Ao cuspir na cara do antagonista e rejeitar as
idealizações de seu meio, Rose se emancipa e encontra sua liberdade, executando
um papel heroico ao salvar Jack da morte no instante que o jovem se encontra
algemado. Todos acabam representando um arquétipo que reflete a forma humana de
encarar sua fragilidade perante as forças da natureza (algo que sugere certa
influência no trabalho do cineasta Paul W.S. Anderson com o igualmente emotivo Pompéia, de 2014). E tudo dentro de uma
dinâmica de um cinema com o pé no digital e no uso do CGI ainda mais
recorrentes a partir de 1999-2000 em diante. As maquetes unidas aos efeitos
computadorizados e a fotografia criam uma experiência única que revisita o
passado com um olhar de uma indústria em meio ao fim do milênio.


          E
é dentro dessas bases que o desfecho de Titanic
não poderia ser mais preciso: após relatar toda a jornada e os eventos que
presenciou, a Rose idosa é vista deitada enquanto invadimos o seu sonho,
retornando as estruturas desgastadas do navio, após décadas submersas e, através
da reencenação, do contemporâneo (CGI), revivendo formalmente o doce conto de
fadas criado pela mente da protagonista que ganha vida dentro da ótica de James
Cameron, transformando aquela fantasia tão clara e nítida uma realidade. Ainda
que não seja um evento verídico, o diretor encontra sua maneira de fazer
daquele encanto luminoso e onírico algo real. Não importa se aquilo ocorreu, de
fato (tanto no mundo ficcional da obra quanto no “real” em que vivemos), mas o
que realmente conta é o sentimento que a sequência ocasiona.

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