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“Mas o que é o luto, senão o amor perseverando?”


          Assim como Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen), protagonista de “WandaVision” que possui o superpoder de manipular a realidade, a Marvel Studios também possui um arsenal de magias para mascarar, como novas, coisas que em essência continuam as mesmas. Em face do fast food cinematográfico que é as produções que formam o seu universo compartilhado de super-heróis, seja nos cinemas, seja agora na TV, certamente vem como uma novidade a estética inicial da minissérie em questão, a qual reproduz, de década em década, a forma de programas que marcaram época nas telinhas americanas. Contudo, mesmo nos seus melhores momentos - vindos principalmente de um Visão (Paul Bettany, com timing cômico excelente no episódio dos anos 60) refrescante, retornando misteriosamente após morrer em “Vingadores: Guerra Infinita” -, além dos seus piores – quando a série larga de mão a premissa a partir do episódio 4, tentando conciliar o mundo de faz de contas com a burocracia Marvel de narrativa -, os visuais, piadas e clichês emulados são, tanto para Wanda, quanto para o público, meramente uma ilusão.


          Dada a “estranheza” de sua primeira camada, na qual é proposto um primeiro episódio sem contexto algum para como e por que o casal de Vingadores está encenando “The Dick Van Dyke Show” e “I Love Lucy” em preto-e-branco e numa razão de aspecto 4:3, o mistério tornou-se cerne de um produto da franquia como nunca antes. Porém, na realidade, "WandaVision” omite uma verdade bem menos lúdica, por toda a incapacidade da Marvel Studios em lidar com fantasia – remetendo a um trecho em “Thor” sobre a magia do nosso mundo ser a ciência de outro -, e profunda, por toda a incapacidade da empresa em lidar com drama sem precisar sempre criar digressões desnecessárias, que visam expansão de mundo, mais filmes e dinheiro, no lugar de uma boa história sobre luto.


          Logo, embora surja acompanhada de inúmeras caracterizações elogiosas quanto as inovações, revoluções, aos paradigmas quebrados e originalidade, dentre outros mil exageros no que tange ao que o programa promove, a minissérie, pouco a pouco, mas desde o princípio e devido a problemas variados, não tarda a revelar ser o puro suco Marvel de produção de conteúdo. Ou realmente há algum motivo para Monica Rambeau (Teyonah Parris) estar na obra, a não ser conectar “WandaVision” com o futuro do universo Marvel, em meio a uma coleção de filmes e séries já anunciados? Como sua mãe morreu, o seu luto “conversa” com o de Wanda, e a sua intromissão rompe com o conto de fadas criado, mas isso é redundante perante a existência de uma outra ameaça para a protagonista além dela mesma.


           Se existem espectadores frustrando-se em vista do nono e último episódio da minissérie não ter apresentado nenhum novo personagem ou ter dado pontapé para novos arcos, fora duas cenas pós créditos, pelo menos que fosse para a digressão e a novidade ter esse caráter resolutivo. Por isso, Mefisto, antagonista dos quadrinhos que os fãs esperavam que aparecesse em um possível, mas enfim falso, plot twist, não seria uma adição pior que a de Monica, caso ele meramente se juntasse a Agnes (Kathryn Hahn) - quem revela ser, para a surpresa de nenhum leitor de gibi, ninguém menos que Agatha Harkness. Ora, até mesmo a introdução dos X-Men não seria um ataque tão direto à perspectiva dramática da série quanto a participação da  na trama, se, por exemplo, em um momento final de solidão de Wanda, diante do fato inexorável de que o Visão que conhecera está morto e só lhe resta suas memórias, a bruxa modificasse geneticamente pessoas a fim de existir mais gente na Terra como ela – ou seja, o caminho oposto dos quadrinhos, onde Wanda comete genocídio mutante.



          Mas enquanto “WandaVision” investe em Darcy Lewis (Kat Dennings) e Jimmy Woo (o simpático Randall Park) como coadjuvantes cômicos, com funções triviais para as firulas narrativas fora do casulo de Westview que Wanda criou como seu lar doce lar, o mistério nas versões Marvel de séries como “A Feiticeira” e “Modern Family” é reduzido a pó, e o elenco de habitantes da cidade perde o potencial de participar de situações que uniriam a fantasia a sua impossibilidade. Em cenas como a do jantar entre Wanda, Visão, o seu patrão e a esposa dele, que reúnem premissas clássicas das sitcoms com disfuncionalidades fantásticas - no caso do jantar, o engasgo do chefe -, “WandaVision” é promissora, pois não usa a fantasia da realidade recriada pela protagonista de forma somente cosmética, mas visando à construção de uma atmosfera ambígua e de um drama, com traumas sendo resgatados na personagem mediante gatilhos – os comerciais são isso.


          Como precisa-se de um agente externo como gancho, que seja Agatha, que atua apenas dentro do casulo, participa do faz de contas de Wanda, pontualmente interfere nele através de sua magia, e contribui, dentro da temática de luto, para que Maximoff perceba que existe sentido para ela além de suas perdas, justamente pelas suas perdas, e que a vida continua, com a personagem agora tornando-se a Feiticeira Escarlate. Contudo, como precisa-se de mais agentes externos do que só um, pois a criatividade dos criadores da minissérie para explorar o mistério e o drama a partir do formato de sitcom é finita demais, daí vêm Rambeau, o genérico Tyler Hayward (Josh Stamberg) e, no fim das contas, o Visão branco, conceito que funciona nos gibis e que poderia conciliar-se com a série - um corpo que, sem a Pedra, não tem “alma”, memórias e nem emoções, logo está morto -, porém, termina dando brecha para muita tagarelice corporativa irrelevante.


          Nesse meio-tempo, com o quarto episódio de "WandaVision" saindo por completo do interior da redoma, e os posteriores indo e vindo da sitcom como bem entendem, a cidade é quem, como personagem essencial para o mundo fantástico orquestrado por Wanda, perde mais, ao passo que os mistérios que despontam tornam-se cada vez mais desinteressados pelos programas de TV aos quais a série se inspira, vide o helicóptero de brinquedo e o apicultor. Ao invés de aproveitar a fantasia, envolver-se em uma atmosfera mais densa e fundamentar o seu drama a partir disso, o que, no fim das contas, importa para a obra acerca do pastiche televisivo é simplesmente a sua explicação, tanto por meio do porquê – as sitcoms são lembranças boas para Wanda, já que as assistia com seus pais e irmão e, depois, com Visão -, quanto do como – as transmissões são reais, são acompanhadas por Darcy e foram iniciadas assim que Wanda repaginou Westview.


          No mundo no qual a Marvel Studios domina o conceito de cinema, o de fantasia não pode ser outro que não o seu, o qual não se sustenta se não houver algum raciocínio, seja o mais sem graça ou não, para o extraordinário ser possível. Em ambas as explicações, as exposições são gratuitas, sendo apenas mais conteúdo para que páginas biográficas sobre a protagonista se encham de curiosidade inútil. Portanto, pouco representa com mais precisão a rasa concepção de fantasia da Marvel que a formulação de um sentido mais concreto à forma de sitcom, como se o estrangeirismo por si só já não significasse comédia de situação, gênero no qual problemas podem até surgir, mas são resolvidos até o fim de um episódio. Ou seja, as séries não precisavam indicar uma utopia para Wanda partindo de uma verborragia pessoal, pois a esperança de que tudo ruim se resolve em vinte minutos já é parte do DNA delas, retratos do sonho americano na televisão.


          Em contrapartida ao aproveitamento das premissas, o cúmulo da criatividade – ou, sendo mais honesto, o cúmulo da falta de criatividade - é o clímax da minissérie ser recheado de ação genérica, tanto no duelo entre Wanda e Agatha, quanto no entre os androides, superior ao das bruxas meramente em razão da sala de roteiro de “WandaVision” conseguir brincar mais com os poderes deles, enquanto elas ficam lançando computação gráfica uma para a outra no céu de Westview. Por outro lado, há coerência na série ter se rendido a esse nível, enquanto o responsável por dirigir os episódios, Matt Shakman, aplica o cursinho básico Marvel em qualquer cena fora das sitcoms, e não precisa mais se preocupar, após o episódio 4, em permanecer 20 minutos inteiros emulando programas que já foram feitos antes e melhor.




          Em paralelo a isso, à medida que avança, é notória que a imaginação de “WandaVision” perde mais e mais força, como se a showrunner Jac Shaeffer mergulhasse em um piloto automático, somente visando cumprir tabela dentro do modelo produtivo da Marvel. Como que o melhor que várias cabeças conseguem pensar, para usar os poderes de Billy (Julian Hilliard) e Tommy (Jett Klyne), é uma cena do primeiro em que ele para uma bala no ar e uma curtíssima do segundo correndo, especialmente quando Evan Peters, o Mercúrio da Fox, também está no elenco da série, e as suas participações nos filmes passados dos X-Men eram certamente mais criativas que isso? Ora, até Hahn perde apelo ao passo que a sua versão “vizinha intrometida” de Agatha desaparece para dar espaço a uma feiticeira má mais tradicional, mas que Shakman não sabe filmar, impedindo a exploração do terror de cenas como as dos episódios 8, com flashbacks carregados de trauma, e 9, com Wanda cercada de bruxas – nas sitcoms, pelo menos, o “terror” existia quando o formato era rompido.


          Mas o que é "Wandavision", senão a fórmula Marvel perseverando? O estudo íntimo de luto de Wanda soa mais como meio, para que a personagem se transformasse na Feiticeira Escarlate, e menos como fim. “Nós diremos olá novamente”, responde Wanda a Visão na despedida do androide, consolidando a efemeridade de tudo na Marvel Studios, já que, ao invés dessa cena representar realmente a aceitação da heroína, ela denota incompletude, por existir um Visão branco em algum lugar. Não custava para Jac Schaeffer criar, sem prejudicar o cerne da minissérie, uma mísera resolução entre esse Visão e a protagonista – ora, a restauração das memórias não significa que ele consegue dar o sentido que o original dava para elas, porque não há Joia da Mente agora. No entanto, para Kevin Feige, o verdadeiro showrunner da grande série que a Marvel Studios produz desde 2008, ganchos são mais oportunos que consumações, por isso insiste-se que cada obra que venha seja, antes de ser uma obra própria, ponte para a próxima.


          Mesmo assim, a ilusão de profundidade, criatividade e originalidade é o que mais incomoda, por causa do desperdício de conceitos, como o do Visão sendo fruto das lembranças de Wanda, os quais, como ponto de partida para a minissérie, originam-se de belos simbolismos no uso da fantasia – no caso, ele sendo extensão dela. Por isso, que o espírito que lampeja às vezes na série a cada incursão sua nos seriados de TV do passado, dado o casal de protagonistas que entregam bom drama e boa comédia quando permitidos, seja o bastante para que “WandaVision”, em suas respostas a dor de sua personagem principal, conforte um público que, no timing em que se é lançada, lida diariamente com as inúmeras perdas pela COVID-19, ainda que, no fim das contas, a revolução que jornalistas emocionados proclamam a série ser seja somente mais um truque.


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